No cais do porto, a rotina exige força física, vigília permanente e braços fortes para mover a economia. Mas o que acontece quando o peso que se carrega não é uma carga física, e sim o silêncio do cansaço emocional? A cultura portuária — predominantemente masculina — muitas vezes impõe o silêncio. Criou-se o mito de que “homem não chora” e que demonstrar dor emocional seria sinal de fraqueza.
Em um encontro emocionante e transformador na manhã desta quinta-feira, 17, estivadores, familiares e profissionais da saúde, plantaram uma semente para quebrar essa barreira. Do início ao fim, o público tomou a palavra: companheiros e companheiras compartilharam suas histórias reais, relataram desafios pessoais e tiraram dúvidas sem medo ou preconceito. A coragem de cada um ao expor suas vulnerabilidades transformou o auditório em um verdadeiro espaço de acolhimento e humanidade, despertando a curiosidade e a compaixão.
A palestra foi conduzida pela psiquiatra e psicanalista Indira Pinto, que destacou que cuidar da mente é tão vital para a segurança operacional quanto qualquer equipamento de proteção.
“Validar sentimentos é um ato de coragem. No setor portuário, a força física e a resiliência são valorizadas diariamente. No entanto, a verdadeira força reside também em reconhecer limites e expressar emoções sem medo de julgamentos”, enfatizou a especialista.
A psiquiatra abordou fatores como a jornada noturna, a privação de sono e a pressão do trabalho, ressaltando a urgência de descontruir velhos preconceitos que impedem o trabalhador de buscar suporte. Também falou sobre o modelo de sociedade de consumo no qual vivemos, que nos empurra para ganhar mais e mais para consumir, custe o que custar.
“É muito importante esse tipo de debate não só no Setembro Amarelo, a saúde mental é um desafio diário no cais, no dia a dia do estivador. Mais do que negociar, o sindicato tem a missão de cuidar de gente. O sindicato está investindo nesse objetivo porque quer pessoas saudáveis trabalhando, quem vive melhor, trabalha melhor. Não tenha vergonha de procurar ajuda”, destacou o presidente do Sindicato dos Estivadores, Cícero Gonzaga.
O presidente também prestou uma homenagem ao estivador Roselito Ribeiro e sua esposa, a psicóloga Renata Alves Sacchi. O casal, que se conheceu na própria entidade e está junto há 20 anos, desde os anos 1990 desenvolve pesquisas e estudos sobre a história e a saúde mental dos trabalhadores portuários.
A iniciativa faz parte do Setor Social do sindicato, por meio do Programa Viva Bem Estiva, que faz parte do Projeto de Saúde Mental do sindicato, iniciado em janeiro de 2025. Conta com o acompanhamento aos associados e seus familiares, com a psicóloga e assistente social. O diretor social Manoel Sérgio da Silva (Peleco) também está à disposição.
O sindicato também disponibiliza serviços de pilates e academia para fortalecer a saúde física e mental dos associados.
Se você ou algum familiar está passando por um momento difícil, não enfrente a dor sozinho. Há uma rede pronta para acolher você:
1. Atendimento no sindicato (Espaço Psicossocial – 3º andar da sede)
* Serviço Social (com Claudiana Armeloni): Segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
* Atendimento Psicológico (com a psicóloga Rita Mello): Atendimentos semanais nos turnos da manhã e da tarde (agendamento prévio).
2. Canais nacionais de emergência e apoio 24h
* CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (Ligação gratuita, confidencial e disponível 24 horas por dia).
* SAMU: Ligue 192 para atendimento emergencial de saúde.
* Rede Pública: Procure o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou a Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro.